Congelar o efémero

Atualizado: 19 de ago.

Artigo de opinião publicado na 45ª edição do Portimão Jornal de 5 de maio de 2022


• 2022, Artigo de opinião da autoria de Joana Martins Jacó, "Congelar o efémero" publicado na 45ª edição do Portimão Jornal © MonDom


Vivemos mais uma época festiva e de certeza que o leitor retratou momentos do seu

domingo de Páscoa para mais tarde recordar. Tornou-se comum ouvir:“ - Espera, vou tirar uma

foto! “ ou um simples “ Sorri! “ e rapidamente focamos a lente, com posse feita e permitimos um

zoom que possibilite a melhor captura. Idealizamos o álbum “Páscoa 2022”, sentimo-nos mais

confiantes, sabendo que mais um ano se passa, felizes por ter tudo organizado (será?).


Passam uns dias e, nessa semana, fotografámos um porta-velas numa loja de decoração

(ambicionamos comprá-lo mais tarde em promoção), registamos o momento em que vemos os

eco-pontos a abarrotar (com o intuito de enviar um email para a Junta de Freguesia a alertar

pelo sucedido) e pelo meio recebemos um sem número de imagens de conteúdo cómico,

político e às vezes até sem grande conteúdo…que vão ficando armazenadas no nosso

dispositivo móvel. Os dias passam e não há tempo para selecionar o que fica e o que será para

apagar. A vida fotografa-se.


Nasci no início dos anos 80. As máquinas eram analógicas e para fotografar não

precisavam de bateria ou cartões de memória. Os cinco sentidos auxiliavam o nosso cérebro a

registar os momentos relevantes e os registos especiais, férias de verão ou aniversários

ficavam em 12 ou no máximo 24 frames de rolo de filme. O meu pai dizia que 36 já era arriscar

imenso! Porque, se por acaso queimassemos a fita (bastava deixar entrar luz dentro do rolo),

perdíamos as férias (que é como quem diz, ficávamos sem um único registo, ficaria tudo

castanho, ou mesmo negro. Película queimada). Eram necessárias mãos capazes de obter

uma boa focagem e um olhar certeiro que enquadrasse o momento na área limitada pela lente,

mas quem o conseguisse ficava com uma recordação mágica em mãos, durante largas

dezenas de anos. Sempre ouvi dizer que uma fotografia tem uma centena de anos de vida,

mas acredito que há papéis fotográficos que perdurem no tempo por mais anos. Durante uma

semana, a loja de fotografia revelava as nossas palhaçadas das férias, que é como quem diz,

tirava os nossos momentos especiais de um rolinho para um álbum cheio de boas recordações.

O tempo era outro, passava mais devagar e estava tudo bem com isso. Fotografava-se,

revelava-se e guardava-se. Fazia-se acontecer.


Estamos em pleno século XXI e é fácil fotografar, editar e imprimir o que fotografamos.

Podemos fazê-lo à posteriori ou mesmo no próprio dia. Mas será que, no meio de tanto

conteúdo visual que tem o nosso telemóvel, aquele que mais capta o nosso quotidiano, temos

esses conteúdos selecionados? Será que os passamos religiosamente para uma pastinha e de

tempos a tempos decidimos imprimir os momentos registados para mais tarde recordar? Eu,

organizadora profissional, me confesso. Sempre organizei, mas nem sempre imprimia e, no

último ano, perdi o conteúdo da última década em família. Tire uns minutos por dia para limpar

o que fica e imprima regularmente o que tem. Daqui a um tempo ficará feliz por isso!



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