A herança do vazio

Artigo de opinião publicado na 51ª edição do Portimão Jornal de 7 de julho de 2022


• 2022, Artigo de opinião da autoria de Joana Martins Jacó, "A herança do vazio" publicado na 51ª edição do Portimão Jornal © MonDom


Somos convidados para o casamento da nossa melhor amiga. Fazemos questão de estar presentes e trazemos alguma recordação que nos faça lembrar os momentos carregados de amor que vivemos.


Guardamos na pequena mala o cartão que marcava o nosso lugar e onde estava escrito, delicadamente, o nosso nome. Juntamos-lhe uma flor seca que combina na perfeição com a decoração da sala ‘lá de casa’. Acabamos por, mais tarde, guardar essas lembranças numa gaveta, naquela que guarda as recordações ‘especiais’. E o tempo passa.


Numa ida ao mercado, encontramos um reluzente botão dourado na calçada. Trazemos na mala. É lindo. Pensamos no lugar que ocupará na caixa de costura. O tempo passa.


Oferecem-nos uns brincos maravilhosos. Não combinam com o vestuário que temos, não acreditamos poder usá-los nos próximos tempos, mas guardamos na caixa de joias para… um dia. O tempo passa.


Vamos a um festival de música. Dois bonés, um sofá insuflável e um chapéu de chuva de uma conhecida gasolineira. Guardamos, podemos um dia vir a utilizar. O tempo passa.


Verão, Feira do Livro junto à ria. Compramos mais um livro, lemos e até tiramos indicações, mas guardamos na estante. Não é especialmente bonito como objeto, mas acreditamos que um dia servirá, quando os nossos filhos decidirem conhecer a história do artesanato produzido no Algarve. O tempo passa.


Acumulamos, durante décadas, emoções, traduzidas em objetos que povoam as nossas mentes e os nossos lares. Cada peça, cada copo temático ou até mesmo cada palhinha guardados, relembram-nos momentos e pessoas das quais não nos queremos separar. Os anos vão passando e, sem nos apercebermos, colecionamos divisões cheias de tudo e de nada. Na maioria das vezes não voltamos a tocar-lhes e sentimos que, um dia, quando precisarmos de conforto, lá estarão todos aqueles que nos permitiram ser felizes, preservados indefinidamente entre quatro paredes. Mas será assim a vida? Material?


Devemos deixar aos que amamos e que cá ficam as saudades atravancadas numa pesada herança acumulada?


Será justo forçá-los a viver as nossas experiências ou ambições através do que foi deixado numa gaveta ou numa garagem? Devemos obrigá- -los a gastar o seu tempo com aquilo que não é seu? Aquilo que, para quem fica, não está cheio de memórias e afetos, não tem amor ou carinho, mas uns quantos ácaros e uma cor desmaiada ‘comida’ pelo sol?


Agora sei que já passei pelo luto. Ou ele passou por mim. Mais do que uma vez. Aquele luto que nos tira o tapete, mas que nos deixa uma casa cheia de coisas. Imagine a leveza de herdar um espaço vazio de tudo. Povoado de memórias e, alguns objetos escolhidos para os herdeiros contemplarem, mas agrada-me a ideia de passar por cima da tarefa de escolher o que doar, guardar, deitar fora… tomar decisões acerca dos pertences de outros.


Depois da perda, a dor teima em não acompanhar o tempo. Que fique aquilo que honre os que amamos. O que faz sentido, o que nos deixa o coração e a alma cheios de tudo o que lhes é devido, cheios de Vida.


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